quinta-feira, 20 de março de 2014

Em uma folha de papel amarelo com linhas verdes 
ele escreveu um poema 
E o intitulou "Chops" 
porque era o nome de seu cão 
E era o que estava em toda parte 
E seu professor lhe deu um A 
e uma estrela dourada 
E sua mãe o abraçou à porta da cozinha 
e leu o poema para as tias 
Era o ano em que o padre Tracy 
levava todas as crianças ao zoológico 
E ele deixou que cantassem no ônibus 
E sua irmãzinha tinha nascido 
com unhas minúsculas e nenhum cabelo 
E sua mãe e seu pai se beijavam tanto 
E a garota da esquina mandou para ele 
um cartão de Dia dos Namorados assinado com vários X 
e ele teve de perguntar ao pai o que significava X 
E seu pai deixou que ele dormisse na sua cama à noite 
E era sempre lá que ele dormia 

Em uma folha de papel com linhas azuis 
ele escreveu um poema 
E o intitulou "Outono" 
porque era o nome da estação 
E era o que estava em toda parte 
E seu professor lhe deu um A 
e o pediu para escrever com mais clareza 
E sua mãe não o abraçou à porta da cozinha 
por causa da pintura nova 
E as crianças disseram a ele 
que o padre Tracy fumava cigarros 
E largava as guimbas no banco da igreja 
E às vezes elas faziam buracos 
Que era o ano de sua irmã usar óculos 
com lentes grossas e armação preta 
E a garota da esquina riu 
quando ele pediu para ver Papai Noel 
E os garotos perguntaram por que 
a mãe e o pai se beijavam tanto 
E seu pai não o cobria mais na cama à noite 
E seu pai ficou furioso 
quando ele chorou por isso. 

Em um pedaço de papel de seu caderno 
ele escreveu um poema 
E o intitulou "Inocência: Uma Questão" 
porque a questão era sobre uma garota 
E isso estava em toda parte 
E seu professor lhe deu um A 
e um olhar muito estranho 
E sua mãe não o abraçou à porta da cozinha 
porque ele nunca o mostrou a ela 
Foi o primeiro ano depois da morte do padre Tracy 
E ele esqueceu como terminava 
o Creio em Deus Pai 
E ele pegou a irmã 
se agarrando na varanda dos fundos 
E sua mãe e seu pai nunca se beijavam 
nem mesmo conversavam 
E a garota da esquina 
usava maquiagem demais 
O que fez ele tossir quando a beijou 
mas ele a beijou mesmo assim 
porque era a coisa certa a fazer 
E às três da manhã ele se aninhou na cama 
seu pai roncava alto 

É por isso que no verso de uma folha de papel pardo 
ele tentou outro poema 
E o intitulou "Absolutamente Nada" 
Porque era o que estava em toda parte 
E ele se deu um A 
e um corte em cada maldito pulso 
E se encostou na porta do banheiro 
porque nessa hora ele não pensou 
que poderia alcançar a cozinha.

(As Vantagens de ser Invisível)


Das coisas
que fiz a metro
todos saberão
quantos quilômetros
são
Aqueles em centímetros
sentimentos mínimos
ímpetos infinitos não?    
Paulo Leminski


A vida não imita a arte. Imita um programa ruim de televisão.      
Paulo Leminski

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

“Eu quero o seu sorriso. Quero seu abraço e seus olhos enormes olhando para mim, segurar a sua mão e saber que no final tudo vai dar certo. No final da briga nós vamos nos perdoar, na madrugada você vai me contar uma daquelas piadas sem graça com uma pitada de ressentimento, que passa. Quero que a noite acabe com um "Eu te amo". Quero olhar pra você e saber o que está acontecendo. porque, com você, não precisa falar, não precisa explicar nem concluir, tá tudo feito, explicado. A gente se entende numa frequência diferente.
Eu quero filme romântico do tipo "quebra-cabeça". Quero manhã fria e com sol do seu lado naqueles bancos tão velhos, enquanto a gente olha pro chão e se ama em silêncio absoluto, também quero as tardes quentes e abafadas de todas as primaveras de agora até o final do mundo. Quero você no verão quente e no inverno seco, quero os outonos com você, quero seu amor agridoce e sua personalidade azeda.
Quero reclamar de sorvete de milho verde e me entupir do seu chocolate favorito, sua gargalhada do meu lado, suas palavras tão certas soando do seu jeito, daquele modo como só você sabe falar. Quero suas histórias antigas sobre coisas que já se foram. Quero meu nome na sua boca, aquele jeito que só você me chama. Quero você dando aquele riso abafado, que diz "Nós dois sabemos que isso é idiota.".
Quero você do seu jeito, com todos seus defeitinhos. Seu silêncio, sua pele pálida, seu cheiro de sabonete verde, sua voz que me acalma, sua habilidade de torcer a sobrancelha direita quando desdenha de alguma coisa, seu cabelo bagunçado, você, do seu jeito. Quero você andando com as mãos no bolso, aquela falha nos seus dentes. Quero suas pintinhas e seu nome tão bonito.
Quero o nosso dia 4, quero a nossa música tocando em algum lugar do mundo. Quero nós, nossa história, sua poesia e minhas notas.” 

                  -Cris Pepe
“Eu queria viver, sentir, saber, conhecer mais de perto aquilo que não tinha um nome certo, mas que eu queria que fosse amor. A gente quer que seja amor sempre.” 

-Clarissa Corrêa

"E o afeto?Ah,o afeto...Deste eu gosto!Apesar de meu cérebro mandar frequentes mensagens sinalizando que está tudo bem,que o número de pessoas que gostam de mim é maior do que mereço,nem sempre me parece pequena quantidade de afeto que gerei.Fico olhando os caras que sabem sorrir na hora certa,abraçar do jeito certo,dizer o que todos esperam ouvir e...putz,este coraçãozinho gostaria de fazer miojo sem se queimar.|Ao menos uma vez.Falta sabedoria." 
                     -Humberto Gessinger,Nas entrelinhas do Horizonte

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Agora pensei outro pensamento de gente grande. É assim: vezenquando, uma coisa só começa mesmo a existir quando você também começa a prestar atenção na existência dela. Quando a gente começa a gostar duma pessoa, é bem assim.” 
                                                                                                                      -Caio Fernando Abreu